O ano 2020 contado às crianças…

Corria o ano 2020. Todos tinham uma grande expectativa, um novo ano, uma nova década! Tantos projetos, tantos sonhos, tantas viagens programadas! Havia, porém, um pequeno rumor, o qual, a bem dizer, ninguém estava a dar muita importância: contava-se que tinha surgido, ainda no final de 2019, uma tal doença chamada COVID-19, um vírus chamado SARS-COV-2 tinha aparecido na China! Bem, da China espera-se tanta coisa surreal e diferente, era com certeza algo que eles resolveriam rapidamente!

Os sonhos continuavam, os projetos, as vidas, cada um virado para o que era seu, ninguém muito importado com o que estaria a suceder num outro lado do mundo, tão distante e de onde já tínhamos ouvido tantas notícias fantásticas!

Janeiro e fevereiro não viram grandes mudanças, mas em março as notícias já eram outras: esse tal vírus não estava fechado na China; como é próprio de uma aldeia global como a que vivemos, ele tinha rapidamente começado a viajar e a conhecer outros países. No dia 11 de março, a Organização Mundial de Saúde declarou pandemia mundial! Os países fecharam as fronteiras, as pessoas foram para as suas casas. As escolas, as empresas, as lojas, tudo fechou! Os casamentos foram anulados. Os pais proibidos de ver os seus filhos nascer. As imagens que apareciam na televisão eram de silêncio nas ruas, filas para supermercados, hospitais cheios, números de mortes e infeções diárias invadiam todas as casas. Já todos esperavam pelas 13h, pelo início dos telejornais, para saber quantas pessoas tinham morrido, como ia a curva de infeção, como estava o caos nos hospitais! As redes sociais encheram-se de grandes reflexões devido à situação de confinamento. Isoladas em casa, famílias que praticamente só se viam à noite, eram obrigadas a conviver 24 horas por dia! Os pais passaram a trabalhar em casa, ao mesmo tempo que se tornaram professores. As crianças, até então tão condenadas por usar os dispositivos eletrónicos (que os seus próprios pais lhes ofereciam) agora eram obrigadas a estar horas diante de um computador, em estudos, aulas, explicações, trabalhos! Até as aulas de ginástica foram pela internet!

No meio do caos e do problema, víamos um planeta a mudar para cores mais claras! Os rios ficaram mais limpos. Os monumentos que tantas vezes não eram visíveis devido ao fumo que os cercava, de repente apareciam numa imagem clara: falava-se que era devido à ausência da poluição do Homem! Os meses foram passando, e este “fatídico” ano 2020 chegou ao verão. Com alguma relutância, os presidentes dos países deixaram as pessoas, pouco a pouco e com muitas restrições, espreitar cá para fora, pôr o nariz na rua, cheirar o ar fresco e apanhar o sol que ansiavam! Hum, que sensação de liberdade! Mas afinal ainda não tinha acabado. Para saírem as pessoas tinham que pôr na cara uma coisa estranha, que só se via nos médicos quando faziam operações, ou nos operários das fábricas! Sim, havia países que já usavam há muito tempo, mas o resto do mundo ocidental não a conhecia como parte da indumentária. Sim, as máscaras! Foi estranho colocá-las. Mas sabem o engraçado? A imaginação e criatividade do ser humano é incrível! De repente, as máscaras tornaram-se parte da vestimenta de todos os dias. Afinal, ninguém podia sair de casa sem ela. Então, vamos lá ser originais! De bolinhas, bonecos, com cores, sempre a condizer com a roupa! As pessoas já se davam ao luxo de pensar, antes de sair de casa: “Que máscara fica aqui bem?”. Ah, e têm que desinfetar as mãos a cada 40 segundos. Não é bem assim, mas parecido. Frasquinhos de desinfetantes e máscaras suplentes começam a andar por todo o lado e a fazer parte do dia-a-dia. Ah, que louco ano 2020!

Mas tudo isto acontecia paralelamente, ao mesmo tempo! Pessoas que estavam doentes de outras coisas, ficaram sem hipótese de serem tratadas. O assunto nas ruas, desculpem, nas ruas não havia ninguém; nos cafés, ah não esses também estavam fechados. Sim, o assunto ao telefone, nas chamadas de vídeo, no zoom ou no whatsapp, era covid, covid, covid! Tão cedo ninguém esquece isto! Afinal, ficará para sempre na história. Os nossos filhos – “geração covideira” – conhecem os seus pais de máscara e inquietam-se por entrar numa loja sem ela. Chamam-nos a atenção porque temos que pôr a máscara acima do nariz por causa do “corovírus”. Dizem que não podem pôr a mão na boca e param diante de um desinfetante como se de um chupa ou um chocolate se tratasse! Invadiu a mente e a vida deles, e tornou-se o seu normal. Ah sim, quando as pessoas saíram à rua foram preparadas para viver um “novo normal”. “Já nada vai ser como dantes”, alertavam as autoridades dos países. “Nunca mais seremos iguais”, escreviam as pessoas nas redes sociais. Que louco 2020!

As opiniões dividiam-se, claro. “Mas eu vou ter que usar máscara na praia?”. “Faz algum sentido usar máscara?”. Tantas dúvidas, questões e interrogações surgiram! As pessoas falavam, comentavam, mas ninguém no fundo sabia bem do que estava a falar.

Enquanto isso, os “velhinhos”, os avós, as pessoas mais idosas ou doentes, ficavam fechados em casa, condenados à solidão, obrigados pelos seus amorosos filhos e netos, que só os queriam proteger! Mas a tristeza aumentava e os sorrisos apagavam-se. Sorrisos? Ah sim, falava-se que as pessoas não deviam deixar de sorrir, que deviam ter um sorriso por trás da máscara. Mas há muito que ele já só retratava dor e dúvida.

Em setembro, as restrições levantam um pouco mais e fala-se de reinício. Começar a viver, aceitando que esta era a nossa nova normalidade. As crianças voltam para a escola, com as regras definidas: não podem tocar, beijar, brincar umas com as outras. Estabelecem circuitos nas escolas, e não há cruzamento de alunos. Estão a falar de crianças, certo? As mesmas que têm uma inocência característica, que amam amar, abraçar, beijar. Quase que se sentem “acorrentadas”. Mas em grande parte, aceitam. Aceitam, mas por pouco tempo. Aceitam que as chamem a atenção, mas a verdade é que esquecem essa ordem. Têm uma inocência própria, uma natureza que sabe o que é “normal” e o que não é “normal”. Mas aprendem. E sabem o nome do vírus, aprenderam tudo muito mais depressa que os mais velhos!

E as televisões? Que radicais passaram a ser os anúncios! De repente toda a gente nos incentiva a amar à distância, a abraçar com o olhar ou então a vestir um fato de astronauta para fazê-lo! As pessoas tornaram-se mais sensíveis, será? Mais conscientes da necessidade de amar e serem amadas… talvez! Fica a dúvida. Porque também houve quem se aproveitasse para se revelar rude, em nome da segurança e da proteção! Que louco 2020!

Lá para o final do ano (“chegou o final? Ufa, estamos todos fartos deste ano!”, pensavam as pessoas) aparecem as vacinas! Com 95% de eficácia! Realmente, que louco 2020! A ciência demora anos, dezenas de anos, a encontrar a cura para tantas coisas, a fiabilidade das vacinas é atestada com quase 10 anos, mas eis que chegou a vacina das vacinas, a que vai proteger as pessoas deste fatídico vírus! Há um desentendimento claro, uma falta de confiança em muitas pessoas. Mas outras estão felizes, põem na vacina toda a sua derradeira esperança. Há uma divisão de opiniões. Como em tudo, verdade? Como em tudo…

E quando estamos nos últimos dias do ano, os rostos das pessoas são outros: ainda de máscara, claro, mas nota-se um brilhozinho no olhar, uma esperança de algo novo. As expressões são quase como uma pessoa que trilhou sozinha um deserto imenso, por anos, passou pela sequidão e agora, de repente, lá ao longe, vê um oásis! Sim, consegue ver o brilhozinho das águas quando os raios de sol as tocam! Sim, é água! Sim, é esperança! Aliás, já ninguém se importa muito que os governantes dos seus países tenham decidido que a passagem de ano seja passada todos fechados em casa. Já só querem sair do ano! Saltar fora! Uma espécie de saltar de um barco que está prestes a explodir! Em parte, parece que as pessoas pensam que sair deste ano é como sair da máquina do tempo e… “Ufa, afinal foi só um sonho, já passou!” Será? Todos sabem que não, mas lá diz o provérbio “a esperança é a última a morrer”, ou “enquanto há vida, há esperança”.

O que é certo é que as pessoas até temem desejar um bom ano 2021! Aqueles desejos loucos, cheios de confiança, aquelas mensagens cheias de convicção… agora as pessoas são mais comedidas a desejar algo. Desejam sobretudo que seja um ano 2021 bem diferente de 2020!

Sabem o que eu desejo?

Que todos tenham entendido, no fatídico e louco 2020, que nós não sabemos nada! A vida, o futuro, o amanhã, não está nas nossas mãos. Somos seres errantes numa terra que nem nossa é.

Houve Alguém que nos viu num estado espiritual muito semelhante ao que nós vivemos fisicamente durante este ano: perdidos, com dúvidas, cheios de medo. Esse Alguém, no Seu infinito e misericordioso amor, escolheu enviar o Seu Filho à Terra onde vivemos para nos livrar do tormento onde nos encontrávamos. Ele veio. Nasceu, cresceu, fez maravilhas e cerrou com o impensável: deu a vida por nós. Um justo por todos os injustos. Quando olhamos para Ele e decidimos confiar no que Ele fez, é certo uma coisa: não vai impedir que passemos por um ano 2020, mas impede-nos de sentir o mesmo que tantos sentiram. Dá-nos propósito, identidade, foco, direção e certeza que estamos no lugar mais seguro de todos, não obstante à tormenta que está à nossa volta!

Que 2021 traga a todos uma decisão de correr para esse lugar seguro: a Sua presença!

Feliz 2021!